Daniel Souza Corrêa
Tradição não é tradição por acaso Daniel Souza Corrêa


Bom, estamos no começo de 2018 e como em todo início de ano, fazemos aquela retrospectiva do que ocorreu em 2017, além daquelas promessas para o porvir.

E como a maioria, eu estava meio nostálgico por esses dias, mas não em âmbito pessoal, e sim pensando mais nas situações geopolíticas e econômicas — e até sociais mesmo — que, apesar de muitos não se aperceberem, impacta nossa vida de maneira radical. E me deparei com uma situação que sempre se repete no nosso comportamento como sociedade, algo que tem a ver com o infinito embate entre segurança e insegurança, entre o certo e o incerto, o velho e o novo, a certeza e o talvez.

Apesar de não saber exatamente como nomear este tipo de comportamento, creio que todos sabem o que quero dizer: a luta entre Tradição e Ruptura.

Uma é cômoda, confortável…já a outra é desafiante e intrigante. São duas forças conflitantes que existem dentro de cada indivíduo e que, por consequência, molda todo o comportamento da sociedade.

A-HÁ! Mas não pense que vou falar deste desconstrutivismo de forma romantizada, ao exaltá-lo e dizer que o futuro é simplesmente abandonar o passado e sair por aí com um porrete filosófico quebrando o maior número possível de paradigmas…NÃO! E sabe porquê? Porque a tradição não é tradição por acaso. Isso envolve áreas sociológicas, geopolíticas E mercadológicas, afinal as movimentações do mercado refletem o psicológico das pessoas.

VAMOS AOS CASES!

Lendo um livro de James Rickards, editor da Strategic Intelligence, chamado “A Grande Queda”, no qual o autor traz uma situação mercadológica recente que ocorreu no final da década de 1990, conhecida como a “Bolha Pontocom” ou a “Bolha da Internet”, me fez lembrar que eu vi isso acontecer quando eu era apenas uma criança, com apenas 6 anos de idade mas que, por motivos óbvios não dei a devida atenção na época. Eu estava vivenciando a minha primeira GRANDE REVOLUÇÃO, que impactaria todas as potências econômicas, todas as indústrias e a sociedade como um todo…, enfim o mundo!

No que consistiu? No advento de vááárias empresas com seu plano de negócios baseado na internet e em seu infinito potencial revolucionário! UAU! O mundo jamais seria o mesmo! Imediatamente o mercado, como num surto, absorveu os milhares de empresas que prometiam mundos e fundos com a tecnologia do “www”, comprando mais e mais ações das startups. E como chamaram este acontecido de bolha, a tal tinha que estourar, levando rio abaixo milhões e milhões do dinheiro dos investidores, porque muitas dessas empresas só estavam se aproveitando da histeria para surfar a onda do mercado, mas não eram empresas sérias, pois se valiam do pouco conhecimento de todos sobre este assunto que era tão novo.

No livro “A Grande Queda”, Rickards sempre diz que coisas assim tornam a acontecer, por causa do comportamento humano, que tende ao extremo: ou é fundamentalista e “cabeça fechada”, ou então entusiasta do novo, jogando fora tudo que é ou parece ser velho. Ou se age sem pensar, ou se pensa sem agir. Ambas as situações são ruins! E voltando ao texto de James, ele diz que o equilíbrio das coisas é importante, e deve se refletir também em sua carteira de investimentos. Exemplo: em vez de investir tudo em algo com potencial arrasador — a bola da vez é o BitCoin, mas com risco alto e sem valor intrínseco algum –, ele diz ser bom investir também em ouro, por exemplo, que por ser uma espécie de dinheiro, mantém seu valor a despeito dos desabamentos do mercado.

Entendeu a moral da história? Isso também aconteceu outras vezes e em outros “setores”. Quando a Televisão foi inventada, os eufóricos já determinavam o fim do cinema e do rádio! E o foi tanto quanto no momento em que Steve Jobs trouxe ao mundo os tablets para findar a vida do papel e da caneta! Hoje em dia seu filho ou sobrinho o usa mais para assistir Galinha Pintadinha no YouTube do que você para trabalhar.

No mercado de trabalho isso aconteceu também, quando nas gerações das letras finais do alfabeto, lá pra letra X ou Y, o multitasking (ou multitarefas) era o modelo ideal do profissional do novo milênio! Isso era valorizadíssimo nos processos seletivos por todo o mundo! Hoje, sabe-se que as coisas não são bem assim, e que fazer tudo ao mesmo tempo significa, na realidade, não fazer nada direito, como apontam vários estudos.

Nada como a boa e velha técnica de alta produtividade chamada…foco. Simples assim.

Num mundo onde a informação circula muito rápido, as pessoas parecem ter a chamada síndrome de atenção de 2 segundos. Tudo se torna enjoativo instantaneamente, e por isso estamos todos ávidos por novidade.

É pessoal, cuidado com o trem do hype. Precisamos saber que as coisas que chamamos de velhas perduram por algum motivo, e isso é uma verdade se tratando tanto de móveis, quanto de mercado de trabalho! Porque depois de tanto tempo, certas coisas ainda continuam firmes e fortes.

O novo é ótimo! Mas nem tudo deve ser substituído e apagado, e sim agregado e melhorado. Nosso trabalho é descobrir o que manter e o que agregar. Que tenhamos a consciência de que o tradicional não existe por acaso.

Que tenhamos um feliz 2018, sempre lembrando das lições que os anos anteriores nos deixaram!



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